
esse desenho eu fiz assim que terminei de lêr "crônica de um amor louco", do bukowski. usei lápis de cor, giz de cera, um tipo de canetinha com traço 0.2 pra fazer os contornos.
Meu velho Buk. E lá estava eu, com mais um livro ácido nas mãos. Ambientados na vida marginal que Bukowski levava em Los Angeles, as crônicas e contos do livro podem deixar o leitor preso ao choque das imagens, muitas vezes violentas. Os desavisados podem até pensar: “nesse livro só tem pornografia, gente bêbada e violência”. Mas, para aqueles que têm um pouquinho de sensibilidade, a coisa vai além disso…
Leio Bukowski já há alguns anos. E desde o primeiro livro – “Notas de um velo safado” – fiquei impactada com a capacidade que ele tem de extrair de cenas brutais a beleza da aventura humana:
A boca ficou aberta e o sague que escorre do nariz e de outros lados do rosto cai ali dentro. Ele engole tudo e se afoga em seu próprio sangue. Depois se imobiliza por completo e os golpes da bengala já não têm mais efeito.
- Você matou o cara – diz Andrew, lá da poltrona, vendo tudo – e ele ia me conseguir trabalho no cinema.
- Não matei – diz Lincoln – quem matou foi você! Fiquei aí sentado, olhando, enquanto você batia com a própria bengala do cara até morrer. A bengala que tornou ele famoso no cinema!
- Porra, que importância tem isso? – diz Andrew – agora tu já tá falando que nem louco de porre. O que interessa é dar o fora daqui de uma vez. O resto a gente acerta depois. Esse cara tá morto, vamos dar no pé!
A vida só pode ser encarada de uma maneira, e todos têm que atingir determinados objetivos. Enquanto isso, nosso olhar é alienado, e o calor de viver vai fugindo… Uma cena como a relatada acima é a explosão de um absurdo sobre outro. No sentido de que, que tipo de vida é essa que levamos?! O que realmente escolhemos? Que há de realmente nosso no cotidiano? Será que estamos condenados a repetir o mesmo velho roteiro que todos seguem? Então, se estamos fadados a abdicar de nossas escolhas para levar uma “vida normal”, a violência explode a qualquer hora, em qualquer esquina. Alguém nos roubou alguma coisa. Não sabemos quem foi, mas haverá um momento em que vamos descontar sobre algo a revolta de levar uma vida medíocre, que não dá espaço para nossas realizações, para o que realmente queremos ser. E então, de repente, você enlouquece. Sei lá! Comete um crime… Talvez seja isso que resta pra fazer no meio de tanta infelicidade e limitação. Quem pode julgar?! Eu mesma, já entrei em depressão, ja tomei remedios tarja preta para ansiedade etc e tal. É assim que nossa sociedade sabe curar nossas dores. E é contestando o absurdo de tudo isso que, ao meu ver, a escrita de Bukowski encontra sua expressão máxima:
- não. nada. agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão?
- ah, claro que sim, chefe. pra comprar tevê a cores, carro novo, dar entrada na casa própria, pijama de seda, 2 cachorros, barbeador elétrico, seguro de vida, assistência médica, ah, tudo quanto é tipo de seguro, educação escolar pros meus filhos, se eu tiver, porta automática na garagem, roupas finas, sapatos de 45 dólares, câmeras, relógios de pulso, anéis, lavadora automática, geladeira, poltronas e camas novas, forração de carpete em todas as peças, donativos pra igreja, aquecimento central e…
Eis o destino de todo americano. Mas, por sorte, nem todos seguem esse plano à risca. As putas, os bêbados, os ladrões, os mendigos e toda a espécie de gente que é considerada “desqualificada” pela sociedade faz parte das tramas de “Crônica de um amor louco”. Buk constrói estes personagens atribuindo um certo tom de heroísmo a eles, mas flagra a tristeza e a frustração que também envolve suas vidas:
Estávamos a caminho do hospital municipal, todos nós. Os pobres. Os casos de indigência. Cada um com um problema grave, porém diferente, e muitos não voltariam. A única coisa que tínhamos em comum era o fato de sermos pobres com poucas chances de sobrevivência. Íamos ali apinhados feito sardinha. Jamais pensei que coubesse tanta gente dentro de uma ambulância.
Enfim, flagrantes da vida humana. E, lógico, também há espaço para cenas bem humoradas. O humor de Bukowski é irônico, sarcástico. É o tipo de humor que eu mais gosto:
passávamos boa parte do dia no parque, olhando os patos. quando se fica com a saúde abalada de tanto beber e de não ter comida decente para comer, e já se anda exausto de foder para tentar esquecer, não há nada como patos, podes crêr.
E quem nos salvará?! Lógico, o amor. E Bukowski sabe expressar muito bem, com toda a sutileza que lhe é própria, as doçuras que esse sentimento oferece a nossas vidas gastas e atrapalhadas:
Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não havia chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita, e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos enconstados um no outro durante quase uma hora. Não sei porquê, mas foi melhor do que se tivéssemos transado.
Nessa cena, o casal me parece um oásis no meio do deserto. Toda a secura e dureza da vida estampada no cenário de beira do mar, e o casal – a prostituta e Buk – abraçadinhos como dois passarinhos, tinindo, completamente imersos em felicidade. É isso, “Crônica de um amor louco” desvenda a alma humana com as cenas menos esperadas e os personagens mais odiados pela sociedade. Para mim, esse é o mérito do livro e de Bukowski, como escritor: nos igualar enquanto seres humanos, em sentimentos, em desejos. Todos nós só queremos ser felizes, independente de nossa condição material. A lição toda que fica sempre que leio seus livros, é que a vida é bem mais que um emprego e um monte de quinquilharias enfiadas numa casa. A vida é algo extraordinário; os encontros com as pessoas são algo extraordinário. É preciso cuidar disso e lembrar que: sempre temos algo a dizer, a expressar. Não podemos perder isso de vista.

essa é a capa da edição que li. pocket da l&pm. custou R$ 19,00. é o primeiro volume de contos sob este título.